Cerca de dois terços da população portuguesa vive no meio urbano e Lisboa é dos aglomerados com maior densidade populacional do país. Esta realidade é fruto da migração dos campos para as cidades que se acentuou nas décadas de 50 e de 60 do século passado e não mais parou. Mas há uma diferença relativamente ao passado: actualmente, boa parte dos habitantes de Lisboa nasceu em Lisboa ou num outro meio urbano. São cada vez menos os que vieram, conheceram ou tiveram contacto com o mundo rural.

Significa isto que uma política para a cidade não se pode mais cingir a gerir as entradas e saídas de quem vai trabalhar e regressa a casa ao fim do dia. Por muito importantes que sejam, a higiene urbana, o estacionamento automóvel e a segurança não bastam. Criar espaços de entretenimento temporário não é suficiente para que as pessoas se sintam bem a viver em Lisboa. Uma política para uma cidade como Lisboa tem de ter em conta esta nova realidade social: a maioria de quem aqui vive tem pouco contacto com outra existência que não seja o mundo urbano.

Esta situação coloca problemas vários. E numa altura em que a saúde mental está tão em voga adquire uma dimensão a ter em conta por quem está no poder autárquico. É nesse sentido que uma política de arborização e florestação da cidade se torna tão premente. Não apenas como forma de mitigar os efeitos das alterações climáticas, mas também para criar locais onde os lisboetas se possam conectar com a natureza, que é o espaço em que a pessoa melhor se insere.

A plantação intensiva de árvores em Lisboa teria, pois, três objectivos:

Em primeiro lugar, a redução da temperatura por via da platanção de árvores nas ruas e avenidas, nas praças e largos da cidade. Em segundo, por ser a melhor forma de criar um meio ambiente adequado à nova vida urbana constituída por um cada vez maior número de cidadãos sem contacto com outro mundo que não seja o citadino. Ruas com árvores não se tornam apenas mais frescas; são também mais agradáveis à vista e aos sentidos. Mais: habitar num espaço agradável é meio caminho andado para que se criem condições que facilitem e intensifiquem os meios de integração social. Na mesma linha de raciocínio, a constituição de mais espaços verdes de média dimensão que sejam um escape à própria vida urbana dentro da cidade. Por fim, e em terceiro lugar, uma arborização da cidade ajuda à redução da velocidade dos automóveis junto das escolas, creches, mercados e zonas comerciais, por via do alargamento dos passeios. Os atropelamentos mortais em Lisboa estão a bater recordes e não se diminuem apenas com multas. Pedem da nossa parte uma atenção permanente que passa por exigir à autarquia um melhoramento do espaço público condizente aos peões e à sua segurança, quanto mais não seja nas zonas em cima mencionadas.  

Uma política de arborização de Lisboa não deve ser visto como algo despiciendo. Pelo contrário, é um complemento a todas as outras medidas que visam uma melhoria da qualidade de vida na cidade. Mas acima de tudo, torna-se algo cada vez mais indispensável numa sociedade em que praticamente todos nos tornámos citadinos e perdemos o contacto com outro meio que não seja o urbano.