Quando falamos de transparência e combate à corrupção nas instituições públicas, a discussão tende quase sempre a seguir o mesmo caminho: mais regras, mais procedimentos, mais mecanismos de fiscalização e mais obrigações de reporte.
Tudo isso é importante. Mas talvez estejamos a começar a discussão no sítio errado. A pergunta não devia ser apenas "como garantimos que uma instituição cumpre as regras?". Devia ser "como construímos instituições em que os cidadãos possam confiar?". Parece uma diferença subtil mas não é.
Durante demasiado tempo tratámos a transparência como uma função essencialmente administrativa, associada ao cumprimento de obrigações legais, à publicação de documentos ou à resposta a exigências regulatórias. E sim, isso tem de acontecer. Uma instituição pública tem de disponibilizar informação, cumprir regras de contratação, permitir escrutínio. Ninguém discute isso.
O problema é que uma instituição pode cumprir todos os procedimentos e continuar a não ser verdadeiramente transparente. Conhece-se bem este padrão: relatórios extensos, cronogramas cumpridos, checklists completas, e ainda assim uma sensação persistente de distância entre quem decide e quem sofre as consequências dessa decisão. Publicar cem páginas que ninguém lê não é transparência. É cumprimento com aparência de transparência, o que é diferente, e talvez pior, porque dá uma falsa sensação de dever cumprido.
Confiança não nasce do cumprimento formal da lei. Nasce quando os cidadãos acreditam que as instituições são previsíveis, justas, e que trabalham para eles e não apenas para si próprias.
Por isso precisamos de mudar a forma como pensamos estas funções dentro das instituições. Quem trabalha uma estratégia de transparência e integridade não pode ver-se apenas como gestor de processos, embora essa dimensão operacional seja essencial e exija equipas competentes capazes de transformar princípios em prática: ferramentas, procedimentos, prazos, indicadores. O verdadeiro trabalho está noutro nível. No desenho institucional. Passa mais tempo a fazer perguntas do que a gerir respostas: onde estão os pontos de fragilidade, onde pode nascer a arbitrariedade, que decisões continuam difíceis de compreender para quem está de fora.
Uma instituição forte não pode depender da qualidade moral de quem temporariamente a lidera. Queremos bons dirigentes, claro. Mas as sociedades mais desenvolvidas não são as que arranjaram forma de pôr sempre as pessoas certas nos lugares certos, ninguém consegue garantir isso de forma consistente. São as que construíram instituições sólidas o suficiente para funcionar mesmo quando isso não acontece.
Numa democracia liberal esta questão pesa ainda mais. Defender um Estado mais limitado não é defender um Estado mais fraco, é o contrário: quanto mais concentradas e claras forem as suas funções, maior tem de ser a exigência sobre a qualidade das instituições que as executam. Um Estado que faz menos coisas tem a obrigação de fazer bem aquilo que decide fazer. Proteger a confiança dos cidadãos está no topo dessa lista.
O combate à corrupção começa muito antes de haver corrupção. Começa quando os processos são simples, quando há menos zonas cinzentas, quando as decisões importantes deixam rasto. Isto não se resolve com mais um relatório ou mais uma norma, resolve-se com desenho institucional pensado desde o início. Uma instituição transparente não é a que nunca erra, todas erram mais cedo ou mais tarde, é a que deixa perceber como decidiu, porque decidiu, e como corrige quando algo corre mal.
Precisamos de menos "polícias internos", que só aparecem quando já há um problema, e de mais gente disposta a pensar como arquiteto institucional todos os dias, não só depois da crise. É a diferença entre gerir conformidade e construir confiança. E é a segunda que continuamos a subestimar.
A confiança demora anos a construir e muito pouco tempo a destruir. Talvez esteja na altura de parar de tratar a transparência como uma tarefa administrativa e começar a tratá-la como aquilo que realmente é: uma das principais estratégias para fortalecer a democracia.
