Conheci o António Manso quando era miúdo. Os meus pais passavam horas na redacção do Semanário Económico e do Diário Económico, e eu, quando não havia alternativa, também. Era um universo de papel, tabaco, opiniões em voz alta e conversas que nunca acabavam. O Manso era uma das personagens desse mundo. Não sabia então o quanto o reencontraria.
Reencontrámo-nos mais tarde, num pequeno projecto de televisão sobre imobiliário. Ele era o motor. Era sempre o motor. Havia em toda a gente ao redor um certo desalento razoável — aquele desalento de quem sabe que nem tudo funciona, que as coisas demoram, que o país é assim. O Manso não tinha esse desalento. Tinha esperança. Nunca percebi muito bem de onde tirava a energia. Devia ser uma questão metabólica, ou o facto de ter estado tão próximo de coisas más, com uma passagem por Caxias.
A biografia formal diz: nasceu em 1950, foi detido pela PIDE em 1969 e 1971, esteve preso em Caxias, viveu em Paris e na Suécia para escapar à guerra colonial, voltou, acabou o curso de economia no ISE, trabalhou em comunicação, criou a sua própria empresa, e em 2020, com setenta anos, entrou para a Iniciativa Liberal.
Setenta anos. A maioria das pessoas a essa idade está a organizar as férias de Verão e a ver se o joelho aguenta mais uma caminhada. O Manso andava activo a organizar Clubes, eventos e publicações na IL por uma “Lisboa Mais Liberal”.
O percurso intelectual dele é dos mais honestos que conheço. Quando era jovem, era um radical de esquerda. Não daqueles que tinham a fotografia do Mao na parede e depois foram gerir fundos. Era genuíno. Pagou com cadeia. Depois estudou economia a sério — o ISE fazia isso às pessoas — e percebeu que o livre mercado era a única forma de organizar uma sociedade sem que fosse preciso prender ninguém para ela funcionar. Tornou-se um radical da liberdade. A palavra “radical” manteve-se. O objecto mudou. São poucos os que fazem essa viagem com honestidade intelectual.
O que me trouxe para a Iniciativa Liberal foi o mesmo que me levou para trás das grades em 1969 e 1971: o meu profundo amor pelas liberdades individuais.
Disse ele. Há pouca coisa que precise de ser acrescentada a isto.
O Megafone foi a sua criatura. Como são todas as coisas feitas por alguém que acredita de verdade: irregular, imperfeita, e absolutamente cheia de vida. As Conversas da Barata eram a sua voz em formato mais longo. Escrevia como falava, e falava como pensava. Com o rabo-de-cavalo branco e um sorriso ligeiro antes de dizer uma coisa que ia incomodar alguém.
Era amigo de família. Era membro activo da IL. Era autarca no Areeiro. Era mil coisas ao mesmo tempo. O que mais impressionava era que estava ali, aos setenta e tal anos, com mais convicção do que pessoas com metade da idade. Não era nostalgia. Não era saudade de combates passados. Estava genuinamente entusiasmado com o que estava a fazer agora, aqui, nesta organização nova que estava a tentar mudar alguma coisa.
Morreu em Julho de 2023. O Megafone abrandou. Faz sentido — era ele a alma daquilo. Não há maneira de se manter o ritmo quando sai a pessoa que dava sentido ao projecto.
Agora relança. Propus no plenário da IL Lisboa que já que o Megafone ia voltar em força, e que se fizesse esta homenagem. Tive daí o convite para escrever este texto. Foi mais fácil do que julgava. Não sei se o Manso gostaria de ser homenageado. Era do género de pessoa que preferia estar a fazer do que a ser lembrado. Às vezes, quem fica tem essa necessidade. Também tem razão.
Às coisas que valem a pena não se pede autorização para continuar.
O Manso merece a continuação.
